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quinta-feira, 23 de abril de 2015

Hierarquia Compassiva

Há um tempo venho lendo sobre a hierarquia compassiva, que é fazer escolhas éticas para modificar comportamentos.

Em 2008, Susan Friedman publicou um artigo intitulado "What's Wrong with this Picture: When Effectiveness is not enough", onde falou sobre a hierarquia compassiva: incorporar a ética nas escolhas que fazemos quando treinamos um animal, ao invés de pensar apenas no que "funciona".

A hierarquia compassiva não é um monte de "regras": é um ranking de métodos de treinamento, começando com o menos invasivo para o animal e terminando no mais invasivo. Menos invasivo é definido como o procedimento que deixa o animal com maior controle sobre seus resultados. Quem a usa como guia deve se informar sobre a espécie de animal que está trabalhando e observar o comportamento do indivíduo, já que animais diferentes têm respostas diferentes para cada método.

Intervir em um comportamento é uma grande responsabilidade e devemos levar em conta primeiro o animal: suas necessidades, o que gosta e não gosta. O que o animal quer, e como podemos descobrir um se há método aceitável para conseguir isto?

Abaixo está o gráfico da hierarquia compassiva. Para usá-lo, pense em um comportamento de seu cão que você queira mudar. Comece pela base da figura, no carrinho, e siga em frente bem devagar, pegando todas as saídas à direita. Se o que é proposto naquela "rua" for irrelevante ou não tiver funcionado, siga em frente e pegue a próxima saída, ou consulte um profissional. Lembre-se de parar antes de usar a punição positiva! As lobadas e os sinais de cuidado de de "pare" nos avisam conforme formos chegando em ações mais invasivas.



Vamos aos exemplos, usando aqui o treino de caixa de transporte.

Intervenção 1: Saúde, nutrição e ambiente físico. Significa procurarmos primeiro um motivo físico para aquele comportamento, seja um problema físico do animal ou algo do ambiente que o afeta.
Comportamento 1: O cão fica parado quando você pede para ele entrar na caixa. Seu cão idoso parece que se esqueceu de como entrar na caixa: ao invés de entrar lá feliz, ele fica lambendo os lábio. Ele resiste quando você tenta guiá-lo para dentro. Você o leva ao veterinário e descobre que ele está ficando cego. Há um brilho vindo do pote de água de metal dele que o assusta. Sua intervenção: trocar por um pote de plástico.
Quando lidamos com um problema de comportamento, devemos ver se há algo relacionado com a saúde do cão em primeiro lugar, e não se aplica apenas a cães idosos!
Neste caso, se você tentasse treinar novamente o cão, acabaria com um cão "teimoso". E se, pior ainda, você o punisse por não entrar na caixa de transporte?

Intervenção 2: Manejo dos antecedentes. Comandos são antecedentes que ensinamos, mas os antecedentes acontecem todo o tempo na vida do cão. Manejá-los significa que algumas vezes temos que lidar com um comportamento indesejado mudando o que acontece antes dele, ao invés de lidar com as consequências que acontecem depois dele.
Comportamento 2: Filhote chora na caixa. A caixa de transporte está na sala. Seus outros cães estão soltos em outro ambiente. Como parte do processo de levá-los para fora quando você está em casa, você deixa seus outros cães passarem pela sala enquanto o filhote ainda está na caixa. Ele chora e grita, excitado, quando os outros entram. Aí você entra num dilema: deixa o filhote sair enquanto está chorando? Se sim, provavelmente você vai recompensar este comportamento. Mas, e se ele estiver apertado?
Neste caso, o antecedente é a entrada dos outros cães. Isto leva à vocalização do filhote. O barulho pode ser aceitável em outras situações, mas chorar e gritar na caixa é um problema. Três possíveis mudanças nos antecedentes que podem solucionar este problema:

1. Eliminar completamente o antecedente: Levar os outros cães para fora por outra parte da casa. Então pegar o filhote, separadamente, e levá-lo para fora também.
2. Mudar a localização do filhote durante o antecedente: Deixe o filhote sair primeiro. Seja levando-o para fora ou deixando-o solto na sala quando os outros cães vierem. Ele pode até ficar excitado e vocalizar, mas não coloca você em um dilema, como faria se ele estivesse na caixa de transporte.
3. Mudar a localização do filhote, assim ele não estará presente durante o antecedente: Leve o filhote para outra parte da casa e deixe os cães mais velhos passarem pela sala primeiro, então solte o filhote e deixe-o de juntar à gangue.

Qualquer um destes deve resolver este caso particular de choro na caixa de transporte sem precisar recompensar ou punir nada, nem treinar nada.

Intervenção 3: Reforço positivo. Algo é adicionado após o comportamento, levando o comportamento a acontecer com mais frequência.
Comportamento 3: Cão vai para a caixa de transporte e fica lá. É algo que você quer ensinar ao cão. Para fazê-lo usando reforço positivo, você pode usar qualquer um dos três métodos de treino: guiar, capturar ou modelar.

  • Você pode deixar petiscos lá dentro para ele encontrar (guiar).
  • Se ele entrar por conta própria, você imediatamente marca e recompensa (capturar).
  • Se ele está lá dentro e quietinho, você joga petiscos pra ele (capturar).
  • Você pode brincar enquanto modela a entrada dele na caixa de diferentes locais do ambiente (modelar). 


Intervenção 4: Reforço diferencial de comportamentos alternativos. Significa que um comportamento alternativo é recompensado enquanto o indesejado é extinto.
Comportamento 4: Seu cão vai para a caixa quando chega alguém em casa (ao invés de pular). É algo que você quer ensinar. Seu cão adolescente ama todo mundo e fica muito animado quando alguém chega em casa. Ele pula em todos, que não é a sua ideia de receber bem as visitas.
Você começa ensinar o cão a ir para a caixa através do reforço positivo, sem visitas. O treina muito bem até que ele fique muito feliz de ir para lá e, quando damos o comando, ele corre pra entrar na caixa.
Então, o ensinamos que a campainha é o comando para ir para a caixa. Depois que este comando estiver sólido, começamos a praticar com pessoas vindo visitar, mas não em casos reais: tudo controlado.

Pular nas pessoas não acabará se este comportamento não for cessado, então você precisa manejar o ambiente. No começo vai precisar manter o cão atrás de um portãozinho: ele ainda vai poder recepcionar as visitas E pular, mas não nelas.

Para o treino controlado, você precisa treinar as pessoas: elas devem ignorar completamente o cão se ele pular nelas, removendo o reforço anterior dos pulos, que é atenção. Mas o melhor é evitar por completo essa situação: alguns cães gostam de pular mesmo quando as pessoas o ignoram.

A recompensa do novo comportamento deve ser maior ou igual que a original. O ato final é ensinar o cão que, depois de ir para a caixa de transporte, ele vai poder sair de lá e falar "oi", se quiser, mas com calma, sem pulos. Claro, deve-se treinar isto também.

Intervenção 5: Extinção, Reforço Negativo e Punição Negativa.
Intervenção 5a: Extinção. A extinção de um comportamento acontece quando a consequência que antes recompensava o comportamento é permanentemente removida.
Comportamento 5a: Filhote late para sair da caixa durante a noite. Quando pegamos um filhote, algumas vezes quando nos atrasamos um pouco para levá-lo ao banheiro à noite, ele dá um latidinho para chamar a atenção. Então você levante e leva-o ao banheiro. Ele vai crescendo e você fica cansado disso. Você tem certeza que ele não está apertado. Então ele late e você continua na cama. Ele late mais. Você não consegue mais aguentar e leva-o ao banheiro.
Em suas pesquisas na internet, descobre que deve ignorar o cão. Então, você o ignora, mesmo ele latindo, latindo e latindo. Quando ele desiste e fica quieto por um ou dois minutos, você pode deixá-lo sair.
Mas isto mostra a desvantagem de usar a extinção deste jeito. A situação é injusta para o cão, que pode mesmo estar apertado e tenta desesperadamente te avisar, como antigamente. O mundo dele virou de cabeça para baixo e o que antes funcionada, agora falha. Agora ele não faz ideia do que fazer para poder usar o banheiro. Você o esperou ficar quieto para soltá-lo, mas não pode usar "ficar quieto" como comando para sair se ele permaneceu quieto praticamente a noite toda. A menos que você queira começar uma cadeia de comportamento: fazer barulho, ficar quieto, sair.
Esta é a razão pela qual a extinção sozinha é pior que o reforço diferencial de comportamentos alternativos. Neste caso, você desenvolve deliberadamente e recompensa um novo comportamento no lugar do antigo, e o cão sabe o que deve ser feito.

Intervenção 5b: Reforço Negativo. Algo é removido após um comportamento, fazendo com que este comportamento aconteça mais vezes.
Comportamento 5b: Filhote fica na caixa. Você ensina o filhote a ficar na caixa quando lhe pede para fazê-lo, sem fechar a porta dela. Você coloca o filhote lá dentro e pede para ele ficar. Ele fica por alguns segundos, levanta e coloca a cabeça para fora. Você chega primeiro e faz um bloqueio corporal, invadindo o espaço dele e usando pressão corporal para fazê-lo voltar para a caixa.
O reforço negativo usa um aversivo, algo que o animal não gosta. Por causa disso pode ter falhas.

Intervenção 5c: Punição Negativa. Algo é removido após um comportamento, fazendo com que ele ocorra menos vezes.
Comportamento 5c: Filhote chora na caixa. Filhote na caixa. Você entra na sala e ele começa a chorar de excitação (e nunca fez isso). Imediatamente você dá meia-volta e sai da sala.

Intervenção 6: Punição Positiva. Algo é adicionado após um comportamento, fazendo com que ele ocorra com menos frequência.
Comportamento 6: Filhote sai correndo da caixa quando ela é aberta. O filhote desenvolveu este hábito irritante assim que você abre a porta da caixa. Então você decide mostrar a ele quem é que manda: pega um spray com água e limão, anda até a caixa de transporte, abre a porta e espirra na cara dele sempre que ele tentar sair.
Isto mostra os muitos inconvenientes da punição positiva. Primeiro, pode não estar claro para o cão porquê está sendo punido. Olhar para fora? Cruzar a porta? Qualquer coisa que tenha acontecido?
Talvez você nem tenha ensinado a ele o comportamento desejado: sentar até que você o libere. Então, da próxima vez que você abrir a porta, ele pode ficar com medo de sair. Ou medo sempre que vir um borrifador. O afeto e confiança que ele sente por você pode diminuir, já que fica claro que é você que o pune com algo muito, muito ruim. O nível de ansiedade dele aumenta muito: o que vai acontecer depois?

Como Susan Friedman disse: "A punição positiva é raramente necessária quando se tem o conhecimento necessário de mudança de comportamento e habilidades de ensino". E nos presenteou com estas outras sete alternativas para ela.

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