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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Inteligência dos Cães - Parte 8

Semana passada publiquei o teste de QI canino. Como seus cães se saíram? Hoje, publicarei a última parte que fala sobre a inteligência Adaptável.

Inteligência Adaptável (parte III)

Em qualquer raça existe uma variação na inteligência adaptável. Infelizmente não foram testados cães suficientes no teste de QI para se ter uma afirmação sobre todas as raças. Na vivência de Stanley Coren, algumas das raças mais populares se saem muito bem, tais como Dobermann, Elkhounds, Pastores de Shetland, Pastores Alemães, Poodles (de todos os tamanhos) e Pulis. Estes cães se destacam tanto nos campos de aprendizado e memória como no aspecto de resolução de problemas da inteligência adaptável.

Comparações de avaliações dos testes de QI de aprendizado e memória (testes 1, 3, 7 e 8) com os de resolução de problemas (testes 2, 4, 6, 9 e 12) mostram que algumas raças se sobressaem em uma área e não em outra. Cães muito bons nos aspectos de aprendizado e memória, mas nem tão brilhantes na área de resolução de problemas são: Beagle, Bouvier de Flandres, Welsh Corgi (Cardigan e Pembroke), Boiadeiro Bernês, Pastores Belgas, Golden Retriever e Labrador.

Entre os cães bons na resolução de problemas mas que não se saem tão bem nas áreas de aprendizado e memória estão o Terrier Australiano, Cair Terrier, Kerry Blue Terrier, West Highland White Terrier, Fox Terrier (pelo liso e duro), Malamute do Alaska, Husky Siberiano, Samoieda, Basenjis, Chihuahua, Schipperke e Schnauzers (todos). 

A inteligência adaptável compõe-se de duas formas de inteligência diferentes. As capacidades de aprendizado e memória não são necessariamente prenúncio de capacidade de resolução de problemas. Enquanto algumas raças têm avaliação alta em ambas, outras podem se qualificar muito bem em uma dimensão e não passar da média em outra. Além disso, dentro de qualquer raça, existem cães mais brilhantes que outros. 

Obs.: Estas foram resoluções do próprio Stanley Coren, baseado em sua experiência com cães de diversas raças. E, como ele mesmo disse, não se fizeram testes o suficiente para determinar as raças que se saem melhor em cada aspecto da inteligência adaptável ou em todos. Portanto, não dá pra dizer que um cão é "burro" ou "inteligente". A própria Suzie, considerada uma raça burrinha, se saiu bem em todos os testes. O que conta muito também são os laços entre dono e cão, o quanto você se dedica a ele (educação).

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A Inteligência dos Cães - Parte 7

Teste QI Canino

Nesta parte da série vou publicar o teste de QI canino feito pelo Dr. Stanley Coren. São 12 testes que podem ser feitos separadamente e fora de ordem, exceto os testes 7 e 8, que devem ser feitos na ordem e um após o outro. Também não é preciso fazer os testes no mesmo dia.

Algumas considerações antes de começar o teste:
- O cão deve ter pelo menos um ano de idade, mas não se apresse;
- O cão deve estar vivendo com você há pelo menos três meses (ou com a pessoa que aplicará o teste), senão os testes 1, 5 e 10 não serão válidos;
- O cão deve morar na casa há pelo menos dez semanas, senão o teste 3 não será válido.
- Não importa o que aconteça no teste, mantenha a calma. Não irrite o cão, não se mostre aborrecido.
- Considere cada teste uma brincadeira e faça com que o cão o veja assim também.
- Em alguns testes você precisa encorajar o cão, em outros deve ficar calado, e em outros precisa atuar para apontar as coisas para ele.

O teste pode ser feito apenas uma vez, mas pode ser um momento de diversão para algumas pessoas e seus cães repetir alguns pontos de vez em quando.

Vamos fazer o teste? Anote a pontuação de cada teste e some-o ao final da aplicação e confira o resultado!

Suzie fez o teste completo em dois dias. Seu resultado foi 53 pontos. A efeito de comparação, fiz o teste com a cadela de minha mãe enquanto eu ainda morava com ela e tinha certas responsabilidades (passeio, comida etc) e o resultado foi 17 pontos... E o seu cão? Como se saiu no teste?


TESTE 1 - APRENDIZADO POR OBSERVAÇÃO: Mede o grau de associação entre idéias. Se você costuma sair com seu cão, simular um passeio é um ótimo teste. Se não, faça uma adaptação a outra atividade corriqueira realizada por você com o cão e caracterizada pelo uso de algum objeto específico. Em horário e lugar diferentes do habitual, mostre o objeto para ele (como a coleira, por exemplo) e observe a reação. Pontuação - Se o cão demonstrar interesse e excitação como se soubesse o que vai acontecer e correr até a porta ou vier direto em sua direção, dê 5 pontos. Se não, dê mais uma dica, como ir à porta e parar. Se ele agora der sinais de que entendeu que vai passear, dê 4 pontos. Se não, dê mais uma chance de ele perceber. Vire, por exemplo, a maçaneta da porta, fazendo barulho. Se ele finalmente compreender, dê 3. Caso tenha demonstrado apenas prestar atenção nas atividades anteriores, dê 2. Se não fez nada e nem prestou atenção, dê 1. 

TESTE 2 - HABILIDADE EM SOLUCIONAR PROBLEMAS (GRAU 1): Avalia a habilidade de resolver situações por conta própria, utilizando experiências anteriores. Pegue um petisco, agite-o perto do cão e deixe que o cheire. Ponha o petisco no chão e uma lata sobre ele. Estimule-o a pegar o petisco, com gestos e palavras. Em seguida, meça o tempo. Pontuação - Se o cão derrubar a lata e pegar o petisco em até 5 segundos, dê 5 pontos. Se levar de 5 a 15 segundos, dê 4. Entre 15 a 30 segundos, dê 3. De 30 a 60 segundos, dê 2. Se tentar uma ou duas vezes, cheirando em torno da lata, mas não pegar a isca após 1 minuto, dê 1 ponto. Se não fizer qualquer esforço para pegá-lo, dê 0. 

TESTE 3 - APRENDIZAGEM DO MEIO AMBIENTE : Verifica o quanto o cão memoriza a posição dos objetos em um local, criando um mapa mental do ambiente. Escolha um lugar familiar ao cão, com vários objetos. Sem ele ver, mude cinco objetos de lugar. Opte por aqueles de fácil acesso ao cão. Leve o cão para dentro do local e comece a medir o tempo, em silêncio Pontuação - Se ele explorar ou farejar qualquer dos objetos trocados de lugar dentro de 15 segundos, significa que percebeu rapidamente a mudança. Dê, então, 5 pontos. Se demorar de 15 a 30 segundos, dê 4 pontos. Se a fizer entre 30 e 60 segundos, dê 3. Se olhar em volta dando sinais de que percebeu algo diferente, mas não explorar nenhuma modificação, dê 2. Se, passado 1 minuto, o cão ignorar as mudanças, dê 0. 

TESTE 4 - HABILIDADE EM SOLUCIONAR PROBLEMAS (GRAU 2) : Verifica como o cão sai de uma situação aflitiva. O cão precisa estar acordado e razoavelmente ativo. Faça-o cheirar uma toalha de banho. A seguir, use-a para cobrir a cabeça e parte do corpo dele. Marque o tempo e observe, em silêncio. Pontuação - Se o cão se livrar em até 15 segundos, dê 5 pontos. Se demorar de 15 a 30, dê 4. De 30 a 60, 3 pontos. De 1 a 2 minutos, 2 pontos. Se não tirar a toalha após 2 minutos, dê 1. 

TESTE 5 - APRENDIZAGEM SOCIAL: Avalia a compreensão visual das expressões emocionais. Quando o cão estiver sentado ou deitado a cerca de dois metros de você, olhe fixamente para a cara dele. Assim que ele olhar para você, conte até 3 em silêncio e dê um grande sorriso. Pontuação - Se o cão vier até você abanando o rabo, dê 5 pontos. Se vier, mas devagar ou abanando o rabo apenas por uma parte do caminho, dê 4. Se estava sentado e ficar de pé ou se estava deitado e se sentar, mas não andar até você, dê 3. Se o cão se afastar de você, dê 2. Se não prestar atenção, dê 1. 

TESTE 6 - HABILIDADE EM SOLUCIONAR PROBLEMAS (GRAU 3) : Mede como se sai em desafios que exigem persistência. Mostre um petisco ao cão. Deixe-o cheirá-lo e vê-lo por 5 segundos. Com grande exagero, ponha-o no chão e, enquanto o cão observa, jogue a toalha aberta em cima do petisco. Estimule-o, com palavras e gestos, a pegar o petisco. Marque o tempo. Pontuação - Se o cão estiver com o petisco na boca em até 15 segundos, dê 5 pontos. Em 15 a 30 segundos, dê 4. Em 30 a 60 segundos, dê 3. Em 1 a 2 minutos, dê 2. Se tentar apanhar o petisco, mas desistir, dê 1. Se ele nem tentar em 2 minutos, dê 0. 

TESTE 7 - MEMÓRIA DE CURTO PRAZO: Avalia o armazenamento momentâneo de informações. Escolha um ambiente de tamanho médio, arrumado, com poucos objetos e que seja familiar ao cão. Coloque uma guia no cão e faça-o ficar sentado no centro da sala (se precisar, peça a um ajudante para segurá-lo no lugar). Quando ele estiver olhando para você, mostre um petisco de cheiro forte. Ele pode cheirar o alimento. Faça uma encenação exagerada (sem dizer nada) e ponha o petisco num canto da sala, certificando-se sempre de que o cão está olhando você. Leve-o para fora e dê uma volta rápida de no máximo 15 segundos. Em seguida, traga-o de volta ao centro da sala. Solte-o da guia e comece a marcar o tempo. Imediatamente após esse teste, faça o próximo (teste 8). Pontuação - Se o cão for direto ao petisco, significa que memorizou bem. Dê 5 pontos. Se farejar metodicamente ao redor da sala e achar o petisco, é porque não fixou com exatidão o local onde estava o alimento. Dê 4. Se procurar à toa, sem rumo, mas mesmo assim achar o petisco em até 45 segundos é porque não memorizou o local. Está usando o faro e a visão para achá-lo. Dê 3. Se ele tentar achar, mas não conseguir após 45 segundos, dê 2. Se nem tentar, dê 1. 

TESTE 8 - MEMÓRIA DE LONGO PRAZO: Verifica a capacidade de armazenar informações por muito tempo. Deve ser aplicado logo após o teste 7 e no mesmo local. Prenda o cão à guia e coleira e ordene que sente no centro da sala. Quando estiver olhando para você, mostre o petisco. Ele pode cheirar o alimento. Faça uma encenação exagerada (sem dizer nada) e ponha o petisco num quanto diferente do usado no teste 7. Observe bem se o cão está vendo. Leve-o para fora do local, por 5 minutos e traga-o de volta ao centro da sala. Solte-o da guia e marque o tempo. Pontuação - Se o cão for direto ao petisco, dê 5 pontos. Se foi ao quanto onde estava o primeiro petisco e depois rapidamente ao canto certo, ele confundiu os dois locais memorizados. Dê 4 pontos. Se cheirar metodicamente ao redor da sala e achar o petisco, dê 3 (usou o faro e a visão). Se parece procurar à toa, mas acha o petisco em até 45 segundos, dê 2. Se tentar achá-lo, mas sem sucesso após 45 segundos, dê 1. Se nem tentar, dê 0.

TESTE 9- RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS E HABILIDADE DE MANUSEIO: Avalia a capacidade de vencer desafios, usando as patas. Faça dois montes, com dois livros ou tijolos empilhados em cada um, deixando-os um pouco separados. Coloque uma tábua sobre eles. A espécie é fazer uma espécie de mesa, baixa o bastante para que o cão não enfie a cabeça por baixo dela, mas suficiente para colocar as patas. Ponha sobre a tábua alguns livros pesados ou tijolos para que o cão não a derrube.. Mostre-lhe um petisco e deixe-o cheirá-lo. Com gestos exagerados, ponha o petisco sob a mesa. Estimule o cão a pegá-lo, mas aponte o local. Marque o tempo. Pontuação - Se o cão usar as patas e pegar o petisco em até 60 segundos, dê 5 pontos. De o apanhar em 1 a 3 minutos, dê 4. Se usar só o focinho ou as patas, mas não conseguir pegar o petisco após 3 minutos, dê 3. Se não usar as patas e se contentar em cheirar ou tentar pegar o petisco com o focinho uma ou duas vezes e desistir, dê 2. Se, após 3 minutos, não tiver tomado qualquer iniciativa para pegar o petisco, dê 1. 

TESTE 10 - COMPREENSÃO DE LINGUAGEM: Verifica a capacidade de compreender o significado das palavras. Com o cão deitado, no mínimo a dois metros de você, diga uma palavra à qual ele não esteja acostumado, como "geladeira". Faça o mesmo tom de voz que costuma usar para chamá-lo. Pontuação - Se o cão mostrar vontade de ir até você, é sinal que reagiu ao tom de voz e não à palavra. Dê 3 pontos. Se não vier, diga outra palavra que ele não esteja acostumado a ouvir, como "filmes", no mesmo tom de voz que usa para chamá-lo. Se ele for em sua direção, dê 2 pontos. Se ele ainda não se manifestar, diga o nome dele e a palavra que usa para chamá-lo. Se ele vier ou mostrar tendência de ir até você, dê 5 pontos. Se não, chame-o mais uma vez. Se vier, dê 4. Se não, dê 1. 

TESTE 11 - PROCESSO DE APRENDIZADO: Mede a habilidade de associar uma ação a um comando. Esse teste leva mais tempo que os outros - cerca de 10 minutos. O cão será induzido a um comportamento desconhecido: levantar-se da posição sentado, dar um passo à frente, dar meia-volta para ficar de frente com você e sentar-se de novo. O cão deve estar sentado, do seu lado esquerdo, com coleira e guia. Etapa 1 a 3 - 1) Com voz clara, dê uma ordem que o cão não conheça, como "frente". Ao mesmo tempo, dê tapinhas com uma ou ambas as mãos nas pernas dele, bem acima dos joelhos. 2) Guie-o para ficar na posição frente: dê um passo à frente com o pé esquerdo, e puxe a guia, em sentido horizontal diante da cabeça dele, para que levante e avance um ou dois passos. 3) Dê um passo para trás com a perna direita, puxando a guia para obrigá-lo a virar para você no sentido horário. Se for um cão grande, talvez você tenha de dar mais um passo para trás. Elogie imediatamente o cão e/ou dê-lhe um petisco. Coloque-o de novo sentado ao seu lado esquerdo e repita o exercício nas etapas 2 e 3. Etapa 4 a 5 - Igual à 1 a 3, só que você deve dar uma pausa de um segundo após a ordem frente e depois tentar deslocar o cão na posição frente, usando o mínimo ou nenhum movimento com sua perna esquerda. Etapa 6 - Dê a ordem frente e observe. Pontuação - Se ele sair do seu lado e for para a posição frente, mesmo de maneira desajeitada, de 6 pontos e considere o teste encerrado. Afinal, ele aprendeu todo o movimento do exercício. Se ele não se mexer após 5 segundos guie-o ao lugar certo e recompense-o, como se fosse apenas um treinamento. Etapas e testes subseqüentes - Repita 10 vezes, como treinamento, a etapa 4 a 5 e depois dê a ordem frente e observe. Pontuação - se o cão executar a manobra toda, dê 5 pontos. Se não, faça mais 10 vezes e repita pela última vez a ordem frente e observe. Se o cão executar o exercício sem nenhuma ajuda sua (não importa se o fizer de forma desajeitada, lenta ou confusa), dê 3 pontos. Se o cão der a volta até a sua frente, mas não sentar, dê 2. Se ficar de pé ao receber a ordem, mas não se mexer, dê 1. Se permanecer sentado dê 0.

TESTE 12 - RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS : Mede a capacidade de desenvolver soluções elaboradas. Pegue um pedaço de papelão bem mais alto e corte uma fenda vertical, deixando 5 centímetros de margem em cima e em baixo (veja ilustração). A fenda deve ter 8 cm de largura. Faça o papelão ficar em pé, prendendo-o com fita adesiva ou barbante em "paredes" laterais (podem ser duas caixas ou cadeiras, deitadas de lado). Ponha o cão diante do papelão, que funcionará como uma barreira (peça para alguém para segurá-lo, se preciso). Fique do mesmo lado. Estimule-o a olhar através do buraco. Com gestos exagerados, introduza um petisco através do buraco e coloque-o no chão a uma distância tal que o cão não possa alcança-lo com a pata. Marque o tempo e peça ao ajudante que solte o cão, enquanto você o estimula com gestos e palavras a pegar o petisco. Pontuação - Se o cão contornar o papelão e pegar o petisco em até 15 segundos, dê 5 pontos. É sinal de que percebeu que precisava dar a volta. Se levar entre 15 e 30 segundos, dê 4. De 30 a 60 segundos, dê 3. Se não tiver pego o petisco após 60 segundos, pare de estimulá-lo ativamente e fique calado por perto, marcando o tempo. Se pegar o petisco em 1 a 2 minutos, dê 2. Se tentar alcança-lo, enfiando a pata através do buraco e depois desistir, dê 1. Se não fizer nenhum esforço para pegá-lo após 2 minutos dê 0. 

RESULTADOS: 54 pontos ou mais - Cão considerado brilhante. Um exemplar com esse nível de QI é muito raro. 43 a 53 pontos - Cão excelente, com QI extremamente alto. 42 a 47 pontos - Cão com QI médio superior. Será capaz de fazer praticamente qualquer tarefa que compete a um cão comum. 30 a 41 pontos - Cão com QI médio. Pode mostrar lampejos de brilhantismo intermitentes, mas em outras tarefas seu desempenho é às pouco inspirado. 24 a 29 pontos - Cão com QI médio baixo. Embora às vezes o cão pareça agir muito inteligentemente, a maior parte do tempo exigirá muito trabalho para fazê-lo entender o que queremos dele. 18 a 23 pontos - Cão com QI incerto. Pode ter dificuldade em se adaptar às exigências do cotidiano e às expectativas do dono. Mas em um ambiente estruturado, pouco estressante, pode se sair até razoavelmente. Menos de 18 pontos - Cão deficiente em muitas áreas do QI. Pode ser muito difícil conviver com ele.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A Inteligência dos Cães - Parte 6

Semana passada tratei da Inteligência Insintiva. Nesta, começarei a falar da Inteligência Adaptável.

Inteligência Adaptável (parte I)
Enquanto a inteligência instintiva revela os comportamentos e aptidões pré programadas do código genético, a inteligência adaptável responde pelo conhecimento, aptidões e competência geral que o cão pode atingir durante sua vida. No cão, a inteligência adaptável tem dois componentes principais. O primeiro é a habilidade de aprendizado, que envolve o ritmo em que o cão pode aprender novas relações. Há muitas formas de aprendizado:

- Aprendizado observacional: é o aprendizado casual, natural, que dá lugar a certas associações entre condições e resultados, mas não exige envolvimento direto por parte do observador. Ex.: o cão aprende que o dono ir até a cozinha pode significar que surja algo para comer, e ele se prepara para isso indo até a cozinha e dando-nos ciência da sua presença.

- Aprendizado ambiental: envolve aprender uma espécie de mapa ou representação mental do ambiente, inclusive da localização de objetos comuns, onde certos indivíduos são encontrados habitualmente e onde certas atividades ocorrem normalmente. 

- Aprendizado social: aprender a responder a sinais sociais humanos ou caninos.

- Compreensão da linguagem: envolve a capacidade do cão aprender sinais verbais dos humanos.

- Aprendizado de tarefa: demanda envolvimento ativo do cão, na base da tentativa e erro, e resulta na sua capacidade de responder a sinais específicos que tragam recompensas. Ex.: o cão respondendo ao "Senta" e ganha um petisco, carinho ou brinquedo. 

Junto com as dimensões do aprendizado acha-se a capacidade de memória e, assim como os indivíduos diferem no aprendizado, também o diferem nas capacidades de memória de curto e longo prazo. 

- Memória de curto prazo: primeiro estágio vital de qualquer processamento da  informação. Ex.: você liga para alguém, o telefone dá sinal de ocupado e você disca novamente, sabendo o número sem precisar olhar. Depois de falar com a pessoa, o número sumiu da sua memória de curto prazo.

- Memória de longo prazo: envolve uma capacidade de armazenagem de informação relativamente ilimitada, resultando lembranças quase permanentes. Ex.: uma informação que pode ser mantida na memória durante cinco minutos tem mais de 50% de chance de ser lembrada um mês depois e 40% de chance de ser lembrada um ano depois.

Outra dimensão importante da inteligência adaptável é a capacidade de resolução de problemas, a aptidão para encontrar soluções corretas que permitem contornar obstáculos ou barreiras físicas ou conceptuais que barram o acesso à recompensa. Há dois aspectos nesta capacidade. O primeiro envolve a capacidade de planejar e selecionar os comportamentos que podem conduzir à solução. O segundo envolve a capacidade de lembrar outras estratégias ou informações aprendidas, vindas de outras situações, e transferi-las para a situação atual. 

Enquanto a raça de um cão é um bom indicativo de sua inteligência instintiva, a adaptável varia muito de indivíduo para indivíduo. A melhor maneira de determinar a inteligência adaptável é testar seu peludo. 

Aos interessados em testar a inteligência adaptável de seus cães, semana que vem colocarei aqui o teste feito pelo Stanley Coren (que eu fiz com a Suzie, claro), composto de doze problemas abrangendo todos os aspectos da inteligência adaptável dos cães. Alguns testes podem ser fáceis para a maioria dos cães (e extremamente difíceis para outros) enquanto outros são difíceis para a maioria deles, enquanto outros os acham fáceis.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A Inteligência dos Cães - Parte 5

Depois de algumas semanas sem publicar nada no blog por motivos pessoais, estou de volta. Espero conseguir publicar esta série e começar outras também, que os ajudem a conviver melhor com seus amigos de quatro patas.

Inteligência Instintiva (parte IV)
Cães de Carga
Para muitas pessoas, os cães que vêm à cabeça são os Huskies Siberianos, conhecidos como cães de trenó. Cães que puxam trenós são reconhecidos pela maioria das pessoas: possuem focinho afilado, orelhas pontudas, pelagem espessa e resistente e a cauda com pelos abundantes e enrolada sobre o dorso: cães do tipo spitz. Entre os cães mais usados nesta função estão o Malamute do Alaska, Samoieda, Husky Siberiano, Elkhound e Keeshound. 


Malamutes do Alaska puxando trenó
 
A organização dos cães é semelhante à das alcateias: há um líder cujos movimentos coordenam as atividades dos outros cães atrelados ao trenó. Os cães da equipe tendem a prestar atenção quase que exclusiva ao líder, praticamente ignorando o condutor humanos. Por isso sabe-se de muitos relatos de trenós que foram embora depois que os condutores caíram ou não conseguiram subir a tempo.

Outros cães também eram usados como cães de carga: São Bernardo, Terra Nova, Boiadeiro Bernês. Estes cães ajudavam no transporte de leites, verduras, carnes, tecidos, pães etc, devido à grande força física e resistência ao puxar as carroças. Exemplo: em Berna, um só Boiadeiros Bernês era capaz de puxar uma carroça com mais de 50kg de produtos, além do peso da própria carroça. 

Só de brincadeira: Boiadeiros levando um companheiro na carroça

Hoje em dia os cães não podem mais ser usados como animais de carga, por ser considerada uma atividade que gera maus tratos aos animais (apesar de muitos afirmarem que os animais são bem cuidados, os casos de crueldade são inúmeros e, por isso, a atividade foi banida).

Outros Cães Especialistas
Os usos de cães que capitalizam aspectos de sua inteligência insintiva são mais diversificados no mundo de hoje. Alguns exemplos incluem:

- cães guia: guiam seus donos deficientes visuais, perminto-lhes deslocar-se de forma independente, mesmo no complicado ambiente urbano;

- cães para deficientes auditivos: alertam seus donos para sons como o da campainha, telefone ou assobio da chaleira.

- cães de busca e resgate: usados para rastrear e achar pessoas perdidas ou sepultadas pelos escombros de terremotos ou sob a neve nas avalanches.

- cães de resgate na água: recuperam pessoas e objetos das águas, nadam levando cordas para velejadores encalhados e até puxam pequenos botes para os salva-vidas, que aguardam.

- cães para busca de drogas e explosivos: usam suas capacidades olfativas para achar materiais proibidos. Uma variação destes são os cães que acham trufas. São melhores que os porcos usados tradicionalmente, por duas razões: os cães tem faro mais apurado e não comem as trufas.

Cães de Companhia
Os cães preenchem outra importante função na vida humana: companhia. Este trabalho parece não exigir uma inteligência instintiva especial, mas depende da personalidade do cão. 

Como companheiros, os cães preenchem certas necessidades nas brincadeiras infantis. Como fornecem interações afetivas e sociais necessárias a pessoas de todas as idades, são ótimos terapeutas. Crianças com dificuldades de comunicação, adultos deprimidos e idosos isolados são ajudados pela presença dos cães de companhia. Existe evidência de redução de tensão ao contato com os cães. Quando afagamos um cão, nossa frequência cardíaca diminui, regulariza-se a respiração e há alívio da tensão muscular: sinais de estresse que começam a desaparecer. Pessoas que vivem em companhia de cães têm menos problemas de saúde e visitam menos o médico. A presença de um cão em sua casa pode prolongar a sua vida!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A Inteligência dos Cães - Parte 4

Vamos agora à terceira parte da Inteligência Instintiva (tem ainda mais partes... esta série vai longe, mas é muito legal para quem curte uma boa história da cinofilia).

Inteligência Instintiva (parte III)
Cães de Pastoreio
Este é um dos seus usos mais permanentes. Até mesmo em países onde os cães são considerados impuros, as pessoas reconhecem que eles são úteis na lida com os animais de fazenda. Alguns cães, como Komondor e Kuvasz, são usados apenas para a guarda dos rebanhos. Mas o uso mais comum é para manter rebanhos de ovelhas, gado ou gansos juntos (claro, além de outros animais) e conduzi-los para locais específicos.


Kuvasz fazendo a guarda de um rebanho

Border Collie ajudando na lida com ovelhas

Os cães herdaram sua aptidão para o pastoreio dos lobos e outros canídeos selvagens que caçam em latilhas. A matilha procura manter junto um grupo de presas em potencial, conduzindo-as a um local específico, e ali separar o animal escolhido para o abate.

Lobos caçando um bisão

Cães caçadores caçando um gnu 

Estes comportamentos de caça se baseiam em cinco instruções geneticamente programadas. As duas primeiras tem a ver com a localização em torno da presa escolhida: a nº 1 diz que uma vez que a presa é avistada, cada lobo se aproximará dela até mais ou menos a mesma distância. A nº 2 diz que cada lobo ficará equidistante dos parceiros à sua direita e esquerda. A implementação destas instruções produz o padrão de certo aparentemente elegante e complexo, com a matilha formando um círculo quase perfeito que se fecha continuamente durante a caçada.

Desde filhote os cães pastores tentam pastorear qualquer coisa que se mexa, de folhas a crianças. O problema para o cão sozinho é que ele tentará fazer o trabalho de uma dúzia de lobos. Primeiro, ele decide qual a distância adequada que a alcateia deve manter do rebanho. A seguir, corre em redor para ocupar os postos que normalmente seriam preenchidos pelos companheiros de caçada. Ao ir de posto em posto, ele cerca o rebanho num amplo movimento de arrumação. Essa corrida em curvas, com pausas, leva as ovelhas a se agruparem e, assim, o rebanho fica junto.

A terceira instrução genética é a emboscada. Quando a alcateia caça, um lobo separa-se dos outros e se esconde para não ser visto pela presa. Agachado, ele espera enquanto os outros lobos conduzem o rebanho lentamente, aproximando-se de onde ele está.  Por isso os cães pastores correm e depois se agacham no chão e ficam olhando as ovelhas fixamente. O olhar do cão parece hipnotizar qualquer ovelha que queira se afastar do rebanho e tende a mantê-las em suas posições.

O olhar penetrante do Border Collie

A quarta programação é responsável pela condução do rebanho. Os lobos manejam rebanhos de bisões, antílopes ou cervos, fazendo-os entrar em áreas onde os movimentos do rebanho serão limitados pelascaracterísticas do terreno, como morros ou cursos d'água. Quando as rotas de escape ficam interditadas, é mais fácil separar e isolar os indivíduos. Os lobos realizam este trabalho investindo frontalmente contra os animais, que correm em sentido contrário. O rumo dos animais pode ser alterado também por meio de mordiscadas em seus calcanhares e flancos. Alguns cães pastores usam o mesmo procediento para controlar os animais do rebanho.

Australian Kelpie mordiscando o calcanhar de uma vaca

A última instrução tem a ver com a organização social adotada pelos lobos naturalmente. O líder inicia e coordena os movimentos da alcateia, e os outros lobos o observam com cuidado e seguem sua liderança. No caso, o homem ensina ao cão pastor diversos comandos, coordenando o pastoreio. Alguns comandos básicos aprendidos pelos cães pastores:

Vem - o cão vai até o pastor.

Pare - o cão para o que estiver fazendo.

Vá para a esquerda (ou direita) - o cão se move na direção indicada, sendo que os movimentos guardam relação com a posição do rebanho.

Cercar à esquerda (ou direita) - o cão deve iniciar a manobra de cerco.

Deita - deflagra a posição na qual o cão se deita e olha para o rebanho.

Perto - o cão se aproxima do rebanho.

Devagar ou Rápido - são comandos usados para controlar a velocidade ou vigor de qualquer atividade que o cão esteja realizando no momento.

Chega - é a deixa para o cão largar o rebanho e voltar ao lado do pastor.

Estes comandos podem ser dados oralmente, por gestos ou apito, ou uma combinação destes.

Algumas raças possuem uma inteligência instintiva que lhes dá condições de se sobressair em determinados sistemas de pastoreio ou certos tipos de animais. Collies, Pastores de Shetland e Border Collies são cães de pastoreio de ovelhas excepcionalmente eficientes e brilhantes.

Pastor de Shetland pastoreando ovelhas

Os Pastores Belga (Malinois, Tervueren, Groenedael e Lakenois), Pastores Alemães, Bearded Collies e Briard são eficientes animais de pastoreio grandes o bastante para também dar proteção contra predadores.

Briard com o rebanho. Dupla função: pastoreio e protetor de rebanhos

Os Welsh Corgis, tanto o Cardigan quanto o Pembroke, foram criados bem baixinhos para que quando mordessem as patas das reses para fazê-las andar, e estas, irritadas, reagissem com coices, os cascos passassem por cima das cabeças dos cães, deixando-os ilesos.

Welsh Corgi Pembroke em ação

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A Inteligência dos Cães - Parte 3

Continuando com a segunda parte da Inteligência Instintiva.

Inteligência Instintiva (parte II)

Cães de Caça
A associação dos cães com humanos começou quando éramos principalmente caçadores. Os cães começaram a exibir muitas das suas habilidades também na arte da caça. As pessoas, então, começaram a selecionar as raças para caça, unindo características úteis dos cães e, desta forma, modificando a inteligência instintiva do animal de forma sistemática. Os cães são usados para achar animais, provocar a revoada, persegui-los, abate-los e levá-los aos seus tutores. (Sou contra a caça de animais mas, devo confessar que acho a maioria dos cães de caça os mais lindos do mundo...).

Cães de Tiro
Os cães de "tiro" são os Setters, Pointers, Spaniels e Retrievers. Cada um deles foi desenvolvido para executar tarefas específicas. São cães que foram selecionados para trabalhar na caça onde a presa é abatida com armas de fogo (Pobres bichinhos... mas, seguindo). Vamos usar o Pointer como exemplo. É um cão silencioso, de ótimo faro. Quando descobre a presa, ele simplesmente congela, apontando onde a presa se encontra com a cabeça e, muitas vezes, com todo o corpo.

Pointer Inglês em ação

Alguns cientista dizem que o comportamento do cão de aponte é uma espécie de curto-circuito ou sobrecarga nerval que congela o cão na posição no momento em que ele se lançaria para a presa. Nos lobos é visto um comportamento parecido, mas eles mantém esta posição por, no máximo, um minuto.

O treinamento de um Pointer torna seu comportamento de caça mais preciso e controlável, mas a tendência a apontar é inata. Filhotes constantemente apontam folhas que caem, penas e brinquedos, mesmo sem terem sido treinados para tanto.

Filhotes de Pointer Inglês apontando aos 3 meses de idade

Com a melhoria das armas de fogo foi preciso mudar um pouco o comportamento do cão. Era preciso cães mais rápidos e mais inteligentes então os criadores desenvolveram os Setters. Os cães deste grupo sentam-se e olham direto para onde a presa se encontra. Ao serem liberados da posição sentado, estes cães se aproximam da presa com movimentos sinuosos, suas caudas abanando cada vez mais rápido. O padrão de oscilação da cauda permite ao caçador prever com precisão quando a ave romperá o cerco e alçará voo.

Setter Inglês correndo em direção à presa

A caça com Spaniels é menos disciplinada. Os Spaniels estão adaptados ao trabalho através de arbustos ou sobre terrenos pantanosos. Esquadrinham o solo pouco à frente do caçador mas, embora procurem a presa, não avisam quando a encontram. Caçar com Spaniels é mais vantajoso quando se caça com redes.

Springer Spaniel Inglês levantando a ave (quando se há poucas aves, também é usada arma de fogo na caça com Spaniels)

No final do século XVIII a densidade populacional aumentou e a zona rural acessível era, na sua maior parte, terra desmatada. Isso originou outra modalidade de caça, onde os caçadores atiravam nas aves, perdizes e faisões, por exemplo, quando elas levantavam voo. Esse tipo de caça demandava cães que localizassem as aves assim que estas caíssem e apanhá-las, sem danificá-las. Mesmo que Pointers, Setters e Spaniels possam ser treinados para tanto, criou-se um especialista no assunto: os Retrievers.

Flat Coated Retriever se atirando na água para pegar a presa...

...e levando-a sem danificá-la ao caçador 

Em áreas pantanosas, cães como Retriever do Labrador são úteis por adorar água. A habilidade dos Retrievers para traçar uma trajetória e deduzir onde a presa cairá é surpreendente. Basta passar um dia no parque e ver como Labradores e Goldens sabem exatamente onde caiu a bolinha ou o frisbee.

Cães Caçadores
Estes cães não caçam individualmente, como as raças acima, mas em matilhas. Além disso, eles não são auxiliares na caça com armas de fogo; são eles que caçam e matam as presas.
Existem dois tipos de caçadores: os sighthounds, que caçam usando a visão, e os scenthounds que usam o olfato. 

Os primeiros avistam a presa e perseguem-na a uma velocidade incrível (e matando-a) assim que a localizam. Salukis e Afghan Hounds são usados na caça a gazelas e antílopes em seus países de origem. O Irish Wolfhound e o Scottish Deerhound foram usados para caçar caribus, alces e lobos. 

Borzois em ação

Estes cães são tão eficientes que grande parte da caça à qual se dedicavam foi eliminada. Por causa deles, cervos, alces, lobos e grandes felinos foram extintos das Ilhas Britânicas e tiveram seu número drasticamente reduzido em toda a Europa (entenderam porque eu ABOMINO as caçadas? O bicho-homem destroi quase tudo por onde passa... felizmente existem seres humanos que fazem jus ao termo "humano" de ser). O resultado? Estes cães perderam seus "empregos" e quase desapareceram.

O segundo grupo usam seus focinhos para seguir a pista da presa. A maioria caça animais tidos como predadores que fazendeiros querem eliminar, incluindo raposas, texugos, coelhos, lebres, guaxinins, linces, pumas etc (pobres animais. A gente que invade seu hábitat e eles que são danosos. Sacanagem).

Matilha de Redbone Coonhound acha a presa

Estes cães foram criados para aperfeiçoamento de suas habilidades no uso do faro, desejo de rastrear e latidos. Suas narinas apontam para frente e para baixo, permitindo que peguem o odor nas correntes de ar que sobem do solo. 

Para se evitar que apenas um único cão seguisse o rastro da presa, o que o cansaria olfativamente, estes cães trabalham em grandes matilhas, cada cão revezando o trabalho de faro. Sabe quando a gente se acostuma com determinado cheiro depois de um tempo sentindo-o? Pois é, acontece o mesmo com estes cães, sabia? Por isso o revezamento e o trabalho em equipe.

Hoje em dia são cães muito usados na detecção de drogas, alimentos (a Beagle Brigade), busca de pessoas entre outras funções (bem mais legal, do ponto de vista animal).

Beagle da Beagle Brigade em ação para detectar a entrada de alimentos clandestinos nos Estados Unidos

Terriers
Sua habilidade é perseguir a presa dentro de sua toca e obrigá-la a sair ou matá-la. Seu pelo duro o protege do atrito quando ele entra na toca. Protege-o também das possíveis mordidas dadas pelo animal encurralado. São cães muito corajosos, precisam trabalhar sozinhos, muitas vezes no escuro das tocas, em situações nas quais não pode recuar e sua vida depende da sua habilidade de lutar. Além disso, são bastante latidores: devem latir ao menor estímulo ou excitação. Estes latidos alertamm os caçadores quanto à localização da toca. É o som dos latidos que diz aos caçadores onde devem cavar.

Border Terrier entrando na toca

São também cães excelentes na caça aos ratos e outros animais daninhos: são mais eficientes que os gatos neste quesito. De modo geral, matam suas presas agarrando-as pelo pescoço e sacudindo-o para quebrá-lo. Por isso suas mandíbulas são incrivelmente fortes. (Quem tem cães terriers vivendo em sítios, sabe muito bem de sua capacidade de acabar com ratos).

Gente, sério, imaginem quantos cães morrem na caçadas? Sim, não são apenas os animais caçados que morrem... Imaginem quantos cães não foram mortos por lobos, leões, texugos, linces etc? E quantos não foram mortos pelos próprios caçadores? Já pararam para pensar nisso? E quando os cães não "serviam" mais eram aposentados? Eram mortos... como ainda o são. Pensem nisso.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A Inteligência dos Cães - Parte 2

Seguindo com a série, hoje vou falar um pouco sobre a Inteligência Instintiva. Avisando: falarei das três inteligências, mas todas serão divididas, Ok?!

Inteligência Instintiva (parte I)

É bem provável que nunca saibamos como nós e os cães estabelecemos nosso primeiro contato pessoal e de trabalho. Mas, supõe-se que os cães que escolheram estar conosco, e não o contrário. Antes do desenvolvimento da agricultura, a humanidade não ligava muito para os cuidados sanitários, então, era comum haver ossos, pedaços de pele e resíduos de caçadas perto dos acampamentos humanos. Os cães aprenderam a rondar as habitações humanas e, com isso, arrumavam comida de vez em quando, sem precisarem caçar. As pessoas primitivas toleravam a presença dos cães porque eles davam conta do lixo. Ainda hoje, em lugares menos desenvolvidos, os cães párias desempenham essa função: eliminar o lixo.

Aos poucos, as pessoas perceberam que os cães poderiam fazer mais do que apenas limpar o lixo. Os cães passaram também a servir de comida quando a caça escasseava.

Cães Vigia e de Guarda
A função do cão vigia é dar o alarme: seu latido é um perfeito sinal de advertência. A função original do latido é reunir a matilha para reagir diante de um problema ou possível intruso, sendo natural na maioria dos cães, não importando seu tamanho. Já dizia um ladrão: "Ao invés de um cão grande, tenha um cão pequeno que lata bastante. O grande pode passar a maior parte do tempo dormindo. O que importa é o barulho". Algumas pessoas fazem uso desta sabedoria, tendo em casa cães pequenos e latidores (como terriers) e grandes para meter medo. 

O primeiro uso consciente dos cães foi na vigia e na guarda. Na pré-história, o mundo era um lugar hostil. Muitos animais espreitavam os humanos como presas, e os acampamentos eram alvos fáceis. Um predador furtivo, que atacasse à noite, era muito perigoso. Os ataques de outros bandos também eram perigosos, seja por hostilidade entre as tribos, seja para roubar comida, mulheres e crianças. Os cães que ficavam perto dos acampamentos faziam barulho sempre que um predador ou bando de pessoas estranhas se aproximava. Ao tornar-se óbvio que os acampamentos ficavam mais seguros com a presença dos cães, estes passaram a ser tambem vigias e guardas, não apenas comedores de lixo.

É provavel que a primeira característica comportamental canina específica escolhida pelos humanos fosse a tendência a latir. A primeira domesticação de cães deve ter envolvido filhotes de lobo e chacal, e aqueles que eram melhor vigias, latindo ao menor sinal de perigo, tinham mais chance de ser conservados e cruzados por seus donos. 

Stanley Coren relacionou, junto com especialistas, adestradores e proprietários de cães, as quinze melhores raças de vigia, ou seja, aquelas que latem ao menor sinal de perigo (ou apenas para o gato no muro...):

1. Rottweiler
2. Pastor Alemão
3. Scottish Terrier
4. West Highland White Terrier
5. Schnauzer Miniatura
6. Yorkshire Terrier
7. Cairn Terrier
8. Chihuahua
9. Airedale Terrier
10. Poodle
11. Boston Terrier
12. Shih Tzu
13. Daschund
14. Soft Coated Weathen Terrier
15. Fox Terrier
  

Rottweiler, tido como o melhor vigia, e Fox Terrier (na versão pelo liso) ocupando a 15ª posição.

Segundo eles, estas raças são excitáveis e latem em presença de um intruso ou na maioria das situações que julgam fora do normal. Apesar deles julgarem que a maioria dos cães são razoavelmente vigilantes e dão o alarme na maioria das vezes, consideraram as doze raças com menos aptidão para latir dando o alarme, sendo inadequados para a tarefa de vigia:

1. Bloodhound
2. Terra Nova
3. São Bernardo
4. Bassethound
5. Bulldog Inglês
6. Old English Sheepdog
7. Clumber Spaniel
8. Irish Wolfhound
9. Scottish Deerhound
10. Pug
11. Husky Siberiano
12. Malamute do Alaska















Bloodhound (esquerda) e Malamute do Alaska (direita), entre as raças com menos aptidão para a vigilância

Estas raças são ótimas para quem quer um cão que não incomode os vizinhos.

Agora, falando dos cães de guarda. Sua função é intervir fisicamente se um intruso perturbar a propriedade, invadir imóveis ou atacar pessoas. O bom cão de guarda é naturalmente agressivo diante de estranhos que entrem em seu território e parece sempre suspeitar de quem não conhece. Também pode-se limitar a manter os intrusos acuados, latindo, rosnando e adotando uma postura obviamente agressiva.

Suas reações são deflagradas por algumas razões. A territorialidade é uma delas, e a mais comum. A maioria dos cães de guarda ameaçam fisicamente quem quer que esteja invadindo seu território. 

Os cães de ataque são cães de guarda que respondem a um comando, perseguindo e atacando qualquer pessoa apontada pelo adestrador. Por exemplo: os cães policiais são treinados para atacar em duas condições: quando seu parceiro humano está sendo ameaçado ou a um sinal deste. Cães de guarda naturais precisam de muito pouco treinamento: eles precisam sim de um treinamento de obediência, além de serem treinados para dirigir sua agressão a alvos apropriados. Ou seja, enquanto as habilidades de guarda fazem parte da inteligência instintiva, o controle destas habilidades exige um pouco de inteligência de trabalho e obediência.

Cães de guarda são falíveis e o maior problema é ensiná-los a diferenciar estranhos inócuos dos hostis. 

Stanley Coren e os mesmos especialistas classificaram os cães segundo sua habilidade como cães de guarda, baseando suas avaliações no temperamento, força física, coragem e resistência ao contra-ataque. Foram treze as raças escolhidas como as melhores guardiãs:

1. Bullmastiff
2. Dobermann
3. Rottweiler
4. Komondor
5. Puli
6. Schnauzer Gigante
7. Pastor Alemão
8. Rhodesian Ridgeback
9. Kuvasz
10. American Staffordshire Terrier
11. Chow Chow
12. Mastiff
13. Pastores Belga (Malinois, Groenendael, Lakenois e Tervueren) - não foram diferenciados como raça.









Bullmastiff, tida como a melhor raça de guarda

























Da esquerda para a direita: Pastor Belga Tervueren, Groenendael, Malinois e Lakenois, tidos como as raças que ocupam a 13ª posição dos cães de guarda mais eficazes

Estes especialistas citam o Poodle Standard como opção muito boa para guarda, porém seu aspecto físico não intimida. As pessoas o veem como cão de luxo, apesar de ser tão bom de briga quanto um Pastor Alemão. Disseram que, entre um Pastor Alemão fraco e um Poodle forte, as pessoas ainda tem mais medo do primeiro, por ser mais intimidador.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A Inteligência dos Cães - Parte 1

Depois de um post muio bacana no blog da Camilli, resolvi que iria publicar uma série de matérias falando sobre os tipos de inteligência canina. Sim, isso mesmo, os cães tem vários tipos de inteligência, não apenas a famosa "inteligência de trabalho ou de obediência", na qual os cães estão listados do mais inteligente ao menos inteligente.

Como o próprio autor do livro A Inteligência dos Cães diz, não se pode dizer que um cão é menos ou mais inteligente que outro com base em apenas um tipo de inteligência.

Vejamos no nosso caso: temos vários tipos de inteligência (linguística, espacial, lógica, interpessoal, intrapessoal etc) e, hoje em dia, não se pode mais declarar que a pessoa X é mais inteligente que a pessoa Y porque a primeira tem notas excelentes em matemática, enquanto a outra se dá bem em português. Todos são inteligentes, à sua maneira e na sua inteligência predominante. Assim são com os cães.

Variedades de Inteligência Canina
A relação homem-cão se origina do fato que os cães realizam funções para nós. Estas funções podem ser utilitária ou psicológica. As funções utilitárias mais comuns são a guarda (pessoal e de propriedades), caça, pastoreio, busca, resgate e no auxílio a deficientes. A função psicológica mais comum é a de fazer companhia. Nos últimos anos, esta função teve um papel mais formal, com os cães fazendo parte de uma terapia preventiva e curativa para os idosos, pessoas isoladas socialmente ou com distúrbios psicológicos. Vejam quantas aptidões diferentes buscamos nos cães! Algumas delas, como as de caça, busca e rastreamento, refletem aspectos de comportamento normais em todos os cães selvagens e seus descendentes e, portanto, são de natureza hereditária ou instintiva. Outras, como a de cão de serviço, envolvem treinamento prolongado.


A melhor maneira de avaliar o grau e natureza da inteligência canina é observar como ela se apresenta nas várias tarefas realizadas pelos cães, tanto para si mesmo quanto para os humanos. São três dimensões diferentes de inteligência manifesta (a inteligência mensurável total de um cão): inteligência adaptável, de trabalho (ou de obediência) e instintiva. 

Nesta primeira parte, darei uma pequena introdução de cada tipo de inteligência e, nas semanas seguintes, falarei mais a fundo sobre cada uma delas. 


Inteligência Adaptável
Quando falamos de inteligência, normalmente nos referimos a habilidades de aprendizagem e solução de problemas. A capacidade de aprendizagem é o número necessário de experiências para que alguém codifique algo na forma de memória relativamente permanente. Quem tem boa capacidade de aprenzigem necessita de poucas exposições a determinada situação para formar associação e lembranças utilizáveis. A resolução de problemas é a capacidade de vencer obstáculos mentalmente, juntar fragmentos de informação numa resposta correta ou descobrir novas formas de empregar a informação aprendida em situações novas. Quem é bom na resolução de problema precisa de menos tempo para chegar à solução e tem menos falsas tentativas e soluções inviáveis.


Estas capacidades configuram a inteligência adaptável. Um exemplo deste tipo de inteligência é seguir a pista da presa para o jantar ou cuidar dos filhotes. Se surgem problemas com frequência, suas soluções são armazenadas na memória (aprendidas), de modo que se possa gerar a melhor resposta, e mais rápido, ao defrontar-se com situações parecidas. Assim, a aprendizagem e a resolução de problemas interagem para tornar o comportamento mais eficiente.


Inteligência de Trabalho ou de Obediência
Quando pensamos em inteligência canina, pensamos em um cão super obediente e altamente treinado fazendo várias coisas que seu tutor pede. Quando o cão demonstra compreender o significado de determinadas ordens, reagindo de forma apropriada, ele demonstra um dos aspectos mais importantes da sua inteligência manifesta - importante porque, se os cães não reagissem ao controle e comando humano, não nos seriam úteis nem capazes de executar as tarefas pelas quais os estimamos. Como esses atributos de inteligência são demonstrados também nas competições de obediência, podemos dar seu nome de inteligência de obediência. Mas, como ela também é uma inteligência necessária para cumprir tarefas no mundo real, poderíamos chamá-la de inteligência de trabalho

Pode parecer lógico que um cão com inteligência adaptável alta tenha uma melhor inteligência de trabalho. Mas, muitos cães com inteligência adaptável alta parecem ser indiferentes às tentativas de lhes ensinarem exercícios de obediência; por outro lado, os que tem inteligência adaptável moderada, executam exercícios de obediência muito bem. 


Enquanto a inteligência adaptável mede o que o cão pode fazer por si mesmo, a inteligência de trabalho deve ser vista como medida do que o cão pode fazer pelos humanos. A inteligência de trabalho contém um componente social. Do ponto de vista humano, reflete respostas ao seu tutor; do ponto de vista canino, é a resposta ao líder da matilha. 


Inteligência Instintiva
É uma inteligência raramente considerada. Inclui todas as aptidões e comportamentos que fazem parte da programação genética. Nos cães, é responsável por grande parte de suas habilidades.

No começo da criação de cães, as pessoas se deram conta de que acasalando cães com traços comportamentais desejáveis específicos podiam desenvolver uma linhagem que carregava aqueles comportamentos em seus genes. Através deste acasalamento seletivo, configuramos o tamanho, tipo, cor e temperamento dos cães, além de selecionarmos certas características comportamentais.


As habilidades herdadas do cão, quer através de pessoas, quer através da seleção natural, viram características que determinam as diferenças entre as raças. Estas habilidades e predisposições comportamentais geneticamente determinadas constituem a inteligência instintiva do cão - aquilo que pode ser transmitido de geração a geração através dos mecanismos biológicos de herança. Alguns aspectos da inteligência instintiva podem ser bem específicos, como a tendência a latir ou a apanhar a caça; outros podem ser gerais e amplos e podem afetar o desempenho do cão quanto à resolução de problemas, obediência ou outros aspectos do comportamento. 


Misturando Mentes
Se os cães apresentam três diferentes tipos de inteligência, qual a mais importante ou a que domina o comportamento do cão? Estas formas de inteligência afetam uma à outra de algum jeito? É preciso um certo nível de inteligência adaptável para produzir uma inteligência de trabalho, mas um cão pobre em inteligência de trabalho não significa pobre em inteligência adaptável. A maneira como a inteligência instintiva interage com as outras é mais complexa. A maioria das raças tem alguma forma de inteligência instintiva que as torna especiais. Isso irá refletir num padrão particular de aptidões, habilidades, predisposições comportamentais e assim por diante. Mas alguns cães parecem mais dominados por suas inteligências instintivas que outros e, no caso de algumas raças, a inteligência instintiva não produz nenhuma aptidão relevante.

Por exemplo, o Dobermann e o Poodle não apresentam habilidades instintivas muito acentuadas que os diferenciem de outras raças. Ambos têm inteligência adaptável e de trabalho bem desenvolvidas mas, profissionais que treinaram Dobermanns para cuidar de ovelhas e Poodles para caçar ratos revelaram que os cães acharam a tarefa muito difícil. Mesmo se o treinamento é feito até o fim, é provável que o desempenho final não seja dos melhores. Os cães conseguirão fazer o trabalho, mas o desempenho nunca será excelente.


Um cão com inteligência instintiva forte e manifesta para certas aptidões, estará melhor entrosado nesse campo de atividade e talvez não se adaptará em ambientes diferentes onde aqueles comportamentos não são possíveis ou não são apreciados. Um cão que não possui aptidões instintivas notáveis pode ter inteligência adaptável melhor e, de acordo com sua personalidade e outros fatores, pode muito bem ser a opção em situações onde as tarefas que deverá realizar e os ambientes aos quais precisará se adaptar são complexos e variados.